Wednesday, April 26, 2006

Indie Lisboa 2006 - Festival de Cinema Independente

Drifting States, 2005


Vi, há umas semanas num jornal diário, uma daquelas histórias que duram um dia. Um senhor de 70 e picos anos, residente no Portugal profundo, mata a mulher que sofria de parkinson e alzheimer há decadas, acamada e com poucos sinais de vida consciente.
Há anos que aquele senhor tomava conta dela. De manhã, como o costume, falou com o filho que foi ver a mãe. Pouco tempo depois de o filho se ter retirado, o senhor matou a mulher ao que parece com dois tiros de caçadeira. Depois, deslocou-se para o jardim interior da casa, sentou-se, juntou a espingarda aos joelhos e suicidou-se com um tiro no cérebro.

Só quem nunca viu o que é uma vida acamada pode tecer comentários absolutos e moralistas em relação a isto. Só quem não sabe o desespero que é ver alguém de quem se gosta (em princípio estariam casados há largos anos), consegue criticar este acto. Só alguém que nunca tenha passado por isto pode não ver o lado "heróico" da coisa. Para mim, foi um acto de amor, de libertação de duas almas acorrentadas a um corpo que já nada lhes trazia de vida.

Ora o único pedaço que consegui ver do Indie Lisboa, nem de propósito, foi um filme chamado "Drifting States", uma longa metragem canadiana realizada por um ex-crítico de cinema chamado Dênis Coté. O enredo é simples: a personagem principal, Christian, acaba por matar a mãe acamada. Depois, refugia-se numa aldeia, Radisson, onde tenta refazer(?) a sua vida (?).

O amor pode matar, já isso sabia. Consigo, agora, perceber o sentido literal da afirmação.

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