Saturday, November 11, 2006

O fim do neoplasia existencial – Parte II

No post anterior, são visíveis as razões porque começa e porque acaba esta neoplasia existencial.

«Senti necessidade de projectar, derramar, inundar-me sem a tentação da protecção», foi assim que comecei a minha aventura de one-blog- girl há precisamente um ano. Quis pessoalizar, intencionalmente, sem me proteger. Assim foi. Hesitei por ter abusado do “eu” e do “tu”. Mas porque haveria de ser diferente no momento do fim?

O objectivo, como aqui se vê, é aprender a perder, encarar a dor de frente, torná-la não gloriosa, mas gratificante, morte como parte da vida que nos faz crescer, sair de nós próprios. Se não doesse, não seria perda; se não perdêssemos, nada teria valor. É a hipótese da perda que nos faz ser vigilantes. E este blog vem daí, da necessidade de extrapolar a dor, para que pudesse ser insignificante. Na esperança que, amplificada à sua maior potência, gere habituação e passe a ser gerível.

Um blog é mesmo uma estranha forma de vida. É um espaço essencialmente egocêntrico, por vezes excessivamente catártico. Era o que eu precisava, um espaço virtual, irreal e ilusório (e, ainda assim, tão pleno de essência), que me fizesse verter o que sentia que me inundava, não me sentindo apta para o derramar de outra forma.

O “meu blog” acabou por ser mantido, igualmente, por razões colaterais: amigos espalhados pelo mundo que, de repente, conseguem partilhar os meus dias mais de perto. Funcionou também como aquele pedaço de cortiça onde se colocam bilhetes de espectáculos, de metro, de comboio e avião; onde se colocam as fotografias do maior sorriso do mundo, de uma tarde carregada de nuvens e a ameaçar chuva, de umas escadas com folhas de plátano…que se partilham com quem não se conhece - para mim, uma novidade. E, por ter tido altas concentrações de mim própria, este blog permitiu que quem me-conhece-mas-não-me-conhece-as-entranhas, eventualmente tenha agora um manual de instruções. E, talvez assim, compreender. Dei voz a outros lados de mim que alguns não conhecem, por manifesta incompetência, pura e simples…just like vodka.

Antes de encerrar este blog, pedi a algumas pessoas que escrevessem um texto, ao jeito de quem vem a minha casa e traz uma garrafa de vinho para o jantar. Alguns conseguiram fazê-lo a tempo, outros nem por isso. Aos primeiros agradeço o privilégio; aos segundos agradeço o esforço e a intenção, mas não quero esperar mais.

Este blog nunca mais será mais eu do que o é agora. E por isso termina. Porque “o coração, se pudesse pensar, pararia." (Fernando Pessoa/Bernardo Soares “Livro do desassossego).

E, a todos que por aqui passaram, 4000 e tal visitas depois, do burgo de pedra cinzenta à solarenga varanda da nação, da Veneza portuguesa à terra onde não há bom vento nem bom casamento, da Londres como berço desejado aos Estados nunca Unidos, do nosso ex-país onde aprendi que viver é simples, ao ponto do planeta onde o Ocidente se mescla com o Oriente...

Até um dia…vemo-nos por aí!

O fim do neoplasia existencial – Parte I

Aceitei.
Haverá sempre uma parte de mim que não esquece.
Nestes últimos dois anos, senti o peso imaginário dos teus braços à minha volta, acordei à hora de sempre para uma chamada que já não acontece. Repeti na minha cabeça diálogos que já não tinham eco real. Tive sonhos de contornos passados, bebi de tudo e de nada, mas coisa alguma me tirou a sede de ti.

Tentei de tudo: o mutismo e a vulgarização do contacto. Ser tudo menos “ex” e ser ex- tudo. Tentei limpar-te a memória, tentei abrilhantá-la. Tentei a culpa, para que nunca mais ganhasse vergonha na cara para te ver e, em vão tão descontente, tentei a raiva da vítima - para que o meu coração apodrecesse de tal forma que nunca mais fosse capaz de amar – a ti ou a qualquer outra pessoa.

De ti já carreguei o negro do ódio, por não conseguir engolir o sabor da incapacidade de ligar dois mundos. O resultado, durante tanto tempo com intervalos intermináveis, foi uma zona cinzenta tão paradoxalmente cheia de cor, de saltos no abismo e lutas no precipício, onde só aí me aprendi a encontrar. Dizias tantas e tantas vezes, num olhar esgueirado abraçado a uma guitarra: a vista da montanha russa é a melhor.

De ti já enchi a cara de lágrimas e sorrisos, plena de uma emoção mórbida que nos foi matando aos dois. Quanto mais golpes sofria, mais de mim te dava; quanto mais te tirava ao mundo, menos te guardava para mim. Levaste-me contigo e deste-me uma vida para viver, e senti que o meu lugar no mundo era quando me protegia dele, escondida no teu peito.

Estou certa: não seria o que sou hoje não fosses tu. És como um acidente ao qual não se pode escapar ileso. Nos instantes antes e depois, tudo surge mais nítido, e sempre – sempre! – mais vívido. Depois do acidente há a névoa, surgem as feridas, mas nada se compara à sensação que te coloca o corpo em transe, a mente noutra dimensão, a vida que te corre nas veias e não pára.

Aceitei. E aceitei o conformismo da minha decisão.

E a crítica a que tal me expõe. Diante de ti, estou como sempre: numa espera de mil compassos. Uns passam rápido e, vá lá, até me dizem que tomei a decisão que podia. Outros, muitos outros, passam lento, como uma morte longa e angustiante.

Aceitei. Aceitei que és sangue nas minhas veias. Que não tenho como parar-te em mim.

Mas a verdade é que a vida continua. Nestes últimos dois anos, a minha necessidade de continuar a dizer-te o que corre na minha vida e nas minhas veias foi enorme, ao ponto de me disciplinar num contexto em que o anonimato é ajuda numa solidão ilusória, um espaço virtual onde poderia continuar a mostrar-te a minha vida como ela corria, dia após dia. Não quero glória por isso, foi superior à minha vontade. Se o lado direito do meu cérebro mandasse mais do que o esquerdo, não o faria. Mas a única razão pela qual continuei esta estranha forma de vida foste tu. A única forma possível de continuar a partilhar os meus dias contigo.

Hoje termina. Não porque a vontade tenha desaparecido. Não porque já não queira partilhar. Corres nas minhas veias e sei que isso não terminará nunca. Para o bem e para o mal.

Mas a minha vida, decidi, vai continuar. Não sei o que será, talvez haja uma razão qualquer, um desígnio insondável, para o tudo ter esbarrado violentamente no nada, esmagando-nos pelo meio. Talvez cada vez que ouça uma linha de baixo reveja, em lentidão, a tua altura. Talvez cada vez que sinta um traste de guitarra nas minhas mãos, sinta a parte de ti em mim que ficou. Talvez por isso ela está encostada a um canto, intacta. Tenho que deixá-la quieta.

“Talvez, de facto”, me console no caminho da normatividade. “Talvez, de facto”, me junte ao exército de soldadinhos cinzentos, que casam porque sim e têm filhos porque…acontece. “Talvez”, ainda, “de facto”, fique também siderada com o crédito para a compra da casa maior, a cozinha miele e o écran de não-sei-quantas-polegadas. “Talvez”, e porque não, invente dores de cabeça e alegue insónias para dormir noutro quarto. Talvez, muito provavelmente, tenha de me sentar na cama do meu filho e dizer “a mãe e o pai continuam amigos e a gostar de ti, mas agora cada um viverá na sua casa”.

E, “talvez”, no dia em que eu tiver a certeza que o caminho do dever está esgotado, que saber onde durmo e onde acordo não me dá conforto que chegue, então talvez tenha chegado o dia de perguntar pela última vez onde estás e simplesmente…chegar.

Quanto mais escrevo a palavra “talvez”, mais sinto que é uma certeza. Do género das tuas certezas: ambíguas, ditas com a convicção de quem nada tem por adquirido. Sei, ainda assim, que cá estarei para o que houver a viver. Mais uma vez, sem certezas, cheia de “talvez”, de “ mas “ e de “ses”.

The original soundtrack for this post is “Keep Breathing” – Ingrid Michaelson

Tuesday, November 07, 2006

Elaine Ling


"Abandoned, namib desert"
Silo - Espaço Cultural