Friday, September 29, 2006

O retiro

Casulas-te porque já não aguentas o mundo à tua volta, numa arrogância muito própria de quem não precisa do exterior para nada. Falsidade nietzchiana ou não, a necessidade aguça o engenho e, voilá!, tornas-te pro em isolamento.

As paredes não falam nem mexem, e fazem-te sempre a vontade. L’enfer c’est les autres, e é mesmo isso. Suspiras em confirmação.

Não há abraços, não há sorrisos, não há piadas. Mas há paz. E há calma. E tudo aquilo por que ansiaste um ano inteiro. A vida segue lá fora, mas desta vez não há um pingo de arrependimento. Ganhas um desprendimento real, como se os outros não contassem para nada. Passam a ser figurantes, porque a personagem principal voltas a ser tu.

Fiona & Friends #7 - MicroLu says

É escuro, mas, de alguma maneira, transforma-se numa ausência de luz nítida. Tão nítida que me deixa ver os outros, os outros reais, puros. É isso, naquele sítio, naquele momento tudo é puro, só por se conseguir captar esse tudo.
Gostava que percebesses, gostava que um dia estivesses lá, que sentisses…
A ansiedade que cresce, o coração que bate como se tivesse acabado de correr fulminantemente. Procuro o ar onde não há, a calma onde a senti pela última vez… em vão. Naquele espaço de tempo, o tempo tal qual o conhecemos, com minutos, horas e segundos, não existe. O compasso de espera mede-se pelo bombar desenfreado das pulsações, pela inquietude do corpo, não há ritmo acertado, não há pausa, não há.
Sorrio como nunca sorrio e, olhando à volta, vejo-os como raramente o faço. Respiro fundo e percebo que ali, estranhamente ali, eu sou só eu. Sou o pior de mim, sou o melhor de mim, tudo ao mesmo tempo. Tão eu que nem sei como me tolero, enfrento e sobrevivo. Um pedaço de pessoa que fora dali não é mais do que uma fórmula fingida, gasta, colada que não deixa ser mais nada. Um pedaço de pessoa que ali o continua a ser; porém ali é um pedaço real, torto, não simétrico, oscilante, mas, ainda assim, puro.
Sou eu.
Sinto que sou eu.
Sorrio.
Olho outra vez à minha volta e vejo-os apesar da escuridão. Parte de mim, parte de quem hoje sou - os que admiro, os que me irritam, os que me são indiferentes. Todos me formam e ali todos eles são também reais. Eles nem sabem, mas vejo-os na sua totalidade, como se fossem transparentes. O que fazem, como fazem, quando olham... Ali também eles se tornam quem, de facto, são. Será que notam? Estamos à beira do limite e é aí que todos acabamos por ser.
Discuto, como nunca discutiria fora dali - porque sou eu.
Acalmo alguém, como nunca acalmaria fora dali - porque sou eu.
Olho, como nunca o faria fora dali - porque sou eu.
Apaixono-me, como nunca me apaixonaria fora dali - porque sou eu.
Odeio, como nunca odiaria fora dali - porque sou eu.
Porque sou eu.
E isto tudo passa depressa, passa devagar… para quê tentar encaixar no tempo o que lá não cabe.
Sempre o tempo.
Pudesse eu isolar aquele pedaço de tempo…
Não. Nem poderia, nem conseguiria. Medo talvez, mas fora dali nunca conseguirei ser eu. Nem é isso que quero. Acho. Sou o que me permito ser; e cá fora não consigo ser mais do que aquela fórmula.
E não te consigo explicar isto num papel; queria que lá estivesses para te conseguir mostrar os gestos, as imagens, os traços, os cheiros, as luzes… podia ser que percebesses, que visses como vejo e sinto tudo aquilo. Já me conheces, eu sei, melhor do que eu, se calhar… talvez de nada valesse estares lá… já saberias tudo. Podia-te explicar, só isso, e tu ouvirias.
Não.
Tu nunca vais ouvir, estar ou sentir - eu sei. Nunca vais aparecer, nunca te vou dizer ou contar isto. Pergunto: se o sei, se estou certa da tua ausência, porque insisto em sentir através de ti, porque é que no fim daquele sítio, daquele tempo, só me sobras tu? No vazio do fim, tu continuas aqui, em mim, depois de eu já ter regressado à fórmula gasta que sou cá fora; a recordação daquele sítio é toda feita como uma reconstituição para que ouças, onde quer que estejas.
Não ouves.
Regresso à roupa do dia-a-dia. Visto-a, até ao próximo dia em que volte àquele sítio, assim, só para me visitar.

O sítio é o palco.
O tempo é aquele que antecede uma actuação.
Eles são as pessoas com quem partilho a experiência dramática.
Tu, se algum dia leres isto, saberás quem és.


The ost for this post is "I know" - Fiona Apple

Thursday, September 28, 2006

Fiona & Friends #6 - João Barreto says

Trechos de carta de candidatura a emprego de um jovem contabilista que se dispersava sempre que pegava numa caneta

Caro senhor,

Em resposta ao anúncio… (…)

(…) Encontro-me actualmente em situação… (…)

(…) Do sítio em que vim sentar-me consigo avistar uma sucessão das traseiras de vários edifícios antigos. É uma paisagem bonita que me remete para um imaginário extraordinariamente íntimo e incomunicável, um pouco como certas peças de roupa de certas mulheres que nunca me são indiferentes. Penso que seria a partir destas imagens, ou destas condensações de memória, que haveria de nascer toda a minha pintura, se se tivesse dado o caso de eu calhar pintor. Enfim, julgo que não se calha pintor. Mas calha-se qualquer coisa que poderíamos classificar do mais pintor ao menos pintor. E, nesse sentido, creio que poderia ter calhado bem menos pintor. (…)

(…) Não sei precisar em que época comecei a pensar nestas coisas. Como seria eu se jamais alguém me tivesse feito uma só pergunta? Se nunca tivesse utilizado palavras para satisfazer outrém? O que diria eu a partir deste ponto original, representando o desejo mais que a necessidade? O que me diriam estas palavras vitais? (…)

(…) Hoje queria escrever na justa medida da minha vida por contar, sem contudo contar nada, e sem propriamente deixar de fazê-lo. Queria dizer-lhe qualquer coisa, caro senhor. (…)

(…) Procuro imaginá-lo a si. Você percebe o significado deste constrangimento na ilharga, sem que chegue a formulá-lo. Agora que vai reformar-se, que a história do mundo o engole lentamente, depois de tanto tempo de pés firmes à proa, agora volta a casa e repara, com mais desprezo do que surpresa ou nojo, que não esperam nada de si. O sentimento é mútuo. (…)

(…) Em algum momento da minha história devo ter trocado as parcelas de um raciocínio, passando a ocupar-me dos preparativos para a vida mais do que propriamente da vida. (…)

(…) porque inteligência e compreensão não podem ser confundidas. (…)

(…) pelo caminho, atravessou-me esta visão de umas traseiras. E vem sendo tão raro que a realidade seja evocativa (…)

(…) Julgo que acabarei por embarcar rumo às negras matas do sul… (…)

Sem outro assunto,
(...)

Wednesday, September 27, 2006

Fiona & Friends #5 - The "So called prince of darkness" says

"(...)Nao sei escrever como tu, sabes bem que a maior parte das vezes so sei falar em acordes. (...) Por isso a unica coisa que posso escrever no teu blog, e transpor o que tenho em vynil, em cd, em mp3 e que nao sai do meu i-pod. E que nao sai da minha tatuagem. »

«Now here I go,
Hope I don't break down,
I won't take anything,
I don't need anything

Don't want to exist,
I can't persist,
Please stop before I do it again...

Just talk about nothing,
let's talk about nothing,
Let's talk about no one,
please talk about no one, someone, anyone

You and me have a disease,
You affect me, you infect me,
I'm afflicted, you're addicted,
You and me, you and me

I'm on the edge,
Get against the wall,
I'm so distracted,I love to strike you,
Here's my confession,
You learned your lesson,
Stop me before I do it again...

You're clear - as a heavy lead curtain want to drill you - like an ocean,
We can work it out, I've been running out,
now I'm running out
Don't be mad about it baby

You and me, you and me,
I want to tie you, crucify you,
Kneel before you, revile your body,
You and me, we're made in heaven,
I want to take you, I want to break you,
Supplicate you, you are incurable,
I want to bathe you in holy water
I want to kill you upon the alter,
you and me, you and me...»

Bad Religion - "Infected"

Friday, September 22, 2006

Site do dia

Já por aqui abordei a constatação de facto de que o ser humano, no sentido antropológico do termo, não ser monogâmico. Chamo-lhe facto porque se contabilizarmos o número de habitantes à superfície da terra - e não nos deixarmos levar por esta coisa de a Cultura Ocidental ser o umbigo da Civilização - a maior percentagem não é de sujeitos monogâmicos (larga contribuição dos países do Médio Oriente e de África).

Então, poderemos afirmar que ser-se monogâmico é uma condicionante cultural?

Julgo que sim. Aprendemos, à medida que crescemos, esta coisa horrorosa das etiquetas: pelos amigos sente-se amizade, pelo marido/namorado(a) amor, pelos pais e pelos irmãos outro tipo de amor.

Para mim, obtusamente afirmo: é tudo amor. Mesmo o ódio é uma forma de amor. A sua forma de expressão é que é diferente.

Mais, as expectativas sociais consubstanciam esta necessidade arquétipa de ver a exclusividade como condição sine qua non, e é no contexto "relação amorosa" (como diz o senso comum) que mais espalhamos o espectro da exclusividade. Com os resultados desastrosos que se conhecem.

E então eu pergunto:
- será o reportório emocional das pessoas tão básico que não aceitem a ideia de poder amar várias pessoas ao mesmo tempo?

- se aceitamos que os nossos amigos amem outros amigos,
- se aceitamos que os nossos pais amem os nossos irmãos,
...porque raio não aceitamos que o nosso namorado(a) ame outra pessoa?

Parece-me que a monogamia é, portanto, um grilhão cultural a que nos prendemos, andamos a brincar às ideias pré-definidas do que é uma relação, a sofrer por causa da nossa própria definição e conceito - sem nos preocuparmos minimante se o ser humano tem ou não recursos para ser monogâmico. Isto é, pedir exclusividade numa relação e fazer dela condição sine qua non, não ganhará contornos de inexequibilidade?

Mas, palavra para quem sabe: comunidade poliamorosa na net.

Blog do dia

Estes Marsalho e Sarrafo, adoráveis, lembram-me bem porque é que adoro homens. Sobretudo aqueles de "sorriso de tubarão". Altamente recomendável. Aqui.

Thursday, September 21, 2006

Hoje assim sinto-me como...#2


Jeff Buckley: nadando perigosamente nos 30.

A questão que ecoa - The Lake House


What if there isn't any?

E se, contra todas as normas, frequências mais batidas, histórias de vida...

E se contra todos os clichés, todos os livros da Jane Austen, todos os filmes de Hollywood, todas as histórias que os amigos nos contam quando nos querem confortar...

E se contra todas as declarações auto-impostas que nos embalam quando adormecemos...

E se não houver? E se a vida for simplesmente passar de encontros inconsequentes em jogos de ilusões sem sentido nem sentimento?

Quem disse, com provas irrefutáveis que vão para além de qualquer questionamento, que há aí alguém? Que de aqui em diante, perdido o euromilhões, nada mais resta do que ficar com aquela sensação de aposta perdida cada vez que se gastam uns tostões de coragem, para se ter em troca pouco mais do que a ilusão de 2 dias até ao momento em que se percebe que não há 13 no totobola?

É uma questão que ecoa...

West vs. East

Para não entrarmos numa lógica dicotómica e maniqueísta, porque se o Papa deveria ter maior bom senso de perceber que qualquer afirmação serve de rastilho e posterior manipulação de massas, não há razão - tal como na questão dos cartoons - para tanto alarido.


«De pai libanês, mãe síria, tendo crescido no Líbano, mudando-se mais tarde para Paris, Samir Kassir (1960-2005), jornalista, historiador e professor de Ciências Políticas na Universidade Saint-Joseph, apresenta em 'Considerações sobre a desgraça árabe' (2004) sete breves capítulos sobre o povo árabe - o olhar deste povo relativamente a si próprio, o efeito do olhar alheio que desconfia, ou que condescende sem se ocultar - manifestando, claro, parte das suas convicções. Laico, empenhado na defesa da democracia árabe, não partilhando no entanto a perspectiva dos nacionalistas libaneses, e considerando-se ocidentalizado, Kassir, cuja obra foi escrita em francês, questiona a “desgraça árabe”. Existirá uma desgraça particular ao povo árabe? Quem é abrangido? De quando data? Que evolução teve para que se chegasse ao estado actual? Que evolução se espera? Entre o desespero, a vitimização e a impotência de que, segundo o autor, só os adeptos do islamismo radical não têm rasto aparente, que futuro poderá almejar o povo árabe? Que papel poderá desempenhar a religião islâmica na “desgraça”?
Não é fácil ser árabe nos nossos dias. Seja para onde for que nos voltemos, do Golfo ao Oceano, o quadro parece sombrio, e mais ainda se o compararmos com outras regiões do mundo, mesmo as mais desprovidas. Contudo, esta “desgraça” nem sempre foi. Para além da idade de ouro da civilização árabo-muçulmana, houve um tempo não muito distante em que os árabes, de novo actores da sua história, podiam projectar-se no futuro com optimismo.Como é que se chegou ao marasmo actual? Como é que se conseguiu fazer crer aos árabes que não têm outro futuro para além do que lhes destina um milenarismo mórbido? Como é que se pôde menosprezar uma cultura viva, para comungar no culto da desgraça e da morte?Sem pretender propor uma receita mágica para sair da desgraça, Samir Kassir mostra que é possível fazê-lo sublinhando que nada, e muito menos a sua herança cultural, deverá impedir os árabes de voltarem a ser sujeitos da sua própria história.»

Samir Kassir, in Considerações sobre a desgraça árabe (Edições Cotovia-2004)

Tuesday, September 19, 2006

Os custos da frontalidade

O primeiro-ministro húngaro, o social-democrata Ferenc Gyurcsany, em conversa com os seus colegas de partido, admitiu ter mentido sobre a situação económica do país. Chegou a dizer: "O que fizemos enquanto governo? Nada. Não fizemos nada!". Entre outras declarações que seriam deliciosas, não fossem tão dramáticas.

Problemazinho: alguém que lhe queria fazer a cama, gravou a conversa e pôs a coisa cá fora.

Resultado: Budapeste está a ferro e fogo. Quem conhece os povos de leste, sabe que - por força da sua história - são essencialmente conformistas (deve ser por isso que os emigrantes ucranianos gostam tanto de Portugal). Budapeste não assistia a coisa semelhante desde o final dos anos 80, com a queda do regime comunista.

Notícia do Dia

Aprovado pelo Governo a 31 de Agosto, o Plano de Acção para a Integração de Pessoas com Deficiências ou Incapacidades (PAIPDI), que ainda não foi apresentado publicamente, prevê a possibilidade de reduções tarifárias nos transportes - resultante de protocolos -, mais 14% de autocarros com acessibilidades, em Lisboa e no Porto, e a contratação de pessoas incapacitadas por 20 grandes empresas nacionais, num total de 400 estágios e 200 integrações profissionais. Além da comparticipação até 3000 euros para obras destinadas a eliminar barreiras arquitectónicas, em 500 fogos por ano.

O resto, aqui.

A primeira da matilha

A primeira da matilha, habitante da doutorolândia, apresenta-se a júri hoje.

A primeira da matilha, também top em tantas outras coisas importantes (um sentido de humor, diria, quase atroz de tão mortal!), foi também uma aluna de top (prémio de mérito que na minha escola vai apenas para O MELHOR de cada ano), uma estagiária de top, uma investigadora de top.

Seria de prever que uma académica de top, com todas as características pessoais, pedagógicas e científicas de top, tivesse um lugar (já nem digo ao sol, digo só um lugar...) neste país medíocre.

Pois ao que parece, não tem.

Este país não tem lugar para jovens investigadores, mesmo que a sua habilitação seja a de Doutoramento.

O problema, para além do dela, é o resto da matilha que vem atrás. Que também não vai ter lugar neste país medíocre.

Como diz Madame Paulina, também ela habitante da doutorolândia, o máximo a que neste momento podemos aspirar é a fazer atendimento ao público na Zara...de Londres.

And: we'll always have tabledance to make a living...

Friday, September 15, 2006

Aqui "a encarregada de educação"

...só sente orgulho pelas minhas "meninas".

Acredito, piamente, que a advocacia, com gente desta, só pode tornar-se melhor. Eu, pelo menos, enquanto cidadã, sinto-me mais tranquila.

E acho que a expressão "parabéns" não chega para tudo o que sentem. Mas, à falta de melhor, aqui vai: PARABÉNS!

PS: Claro que este post tinha de ser em rosa!

Under pressure

A última vez que tinha olhado para o relógio, no mostrador do carro, ditava 23:17. Carlos Paredes e o seu choro de guitarra portuguesa ecoava.

Matosinhos, perto do Hospital Pedro Hispano. Um homem com 2 canadianas está na beira do passeio, com uma passadeira aí a uns 30 metros ou assim ("ou assim", porque nunca fui grande coisa a medir distâncias).

Olho pelo retrovisor e não vem ninguém atrás. Abrando, até parar o carro. Quero deixar o homem passar. Olha para mim com um ar desconfiado, como se não estive à espera de tal benesse. Transmito-lhe a minha intenção de o deixar atravessar a rua com um gesto, que ele imediatamente compreende. Lento, atravessa então. Viro o olhar novamente para o retrovisor, vejo umas luzes de automóvel que vêm atrás, ainda um pouco longe. Ganho em preocupação, porque a via é de duas faixas no mesmo sentido, imagino que o impulso de quem vem atrás é o de contornar o meu carro, apanhando em cheio o homem que seguia, devagarinho, a olhar para o chão.

O carro das luzes ao fundo aproxima-se. Não sei a que velocidade vinha, mas parou atrás de mim. Só aquele travar era sintoma, digamos eufemisticamente, de alguma irritação.
Enquanto o homem ainda atravessava a rua, o de trás começou a buzinar e a dar sinais de luzes.

Um, dois, tr........

Saquei do travão de mão e abri a porta. Saí do meu carro, diriji-me ao do outro e disse-lhe com o sangue nas veias a correr a mil: ouça lá, não vê que está 1 pessoa com duas canadianas a atravessar a rua?. Responde o tipo: ouça lá, e para que servem as passadeiras, sua estúpida?

Gelei. Entrei no que eu chamo de modo alfa, que é quando sintonizo um canal a quem ninguém mais tem acesso. Não ouço nada nem ninguém: só a mim e aos meus impulsos.

Respondi: Ouça lá, oh seu filho da puta, quer que eu vá buscar ao carro o taco de basebol? Que lhe parta as duas pernas e uma ligação neuronal pelo meio para saber que 10 passos para si são 100 para quem tem dificuldades em andar?

Ele responde novamente com uns quantos grunhidos - percebi imediatamente que era do tipo ladra mas não morde (sim, posso ser impulsiva, mas não sou estúpida). E disse-lhe: então deixe-se estar que vai já saber o que é, e fingi que fui à mala do carro. A verdade é que quando virei as costas, ele arrancou, lançou-me mais uns impropérios do género és maluca, não sei quem te deu a carta, é o que dá mulheres ao volante, mas fugiu.

E eu juro, juro perante vocês, que não tenho nenhum taco de basebol no carro. Mas da forma como estava, chegava-me a chave de fendas.

Por isso peço ao universo que nunca me chegue uma arma às mãos.

Thursday, September 14, 2006

Anos, décadas e pelo menos um século...

...de luta pela igualdade de oportunidades, o direito ao voto, o direito à educação, o direito à carreira, anos e anos de queima-soutiens, para ler isto.

É este o drama da mulher no século XXI: tanta e tanta gente lutou por nós, tanta imagem social foi alterada e, no fundo, conseguimos perceber tão bem isto. Pior que as gerações de outrora, porque temos consciência do desperdício. E auto-censuramo-nos.

Mas eu, pelo menos, compreendo. Compreendo mesmo.

SMS do dia

"Queres vir a tertúlia de poligâmicos no lusitano às 20:30?"

Bom. Muito bom.

Wednesday, September 13, 2006

Antecipando o início do fim

«I ain't no vision, I'm the girl
Who loves you inside and out
Backwards and forwards with my heart hanging out
I love no other way
What are we gonna do if we lose that fire?
...
And no matter how you hurt me, I will love you till I die.»

Feist - Inside and Out

The original soundtrack for this post is "Inside and Out" - Feist

Volver - Filha és, Mãe serás

Depois de tantas recomendações, não podia deixar de ver "Volver". Já tanto foi dito, que as palavras somem-se para descrever mais um de Almodovar.

O fascínio pelo matriarcado de Almodovar continua; aquela zona de Espanha (Mancha) poderia ter sido filmado em qualquer zona semi-rural de Portugal; gosto de Penélope Cruz, mas será preconceito ter achado simplesmente MONSTRUOSO o desempenho de Carmen Maura (como uma ausência em filme pode ser tão poderosa)? E perdoem-me o cliché anti-hollywood, mas gostei muito mais do desempenho em pézinhos de lã de Yohana Obo (a filha de Raimunda) do que a ex-Mrs Tom Cruise.

Enfim, Almodovar continua siderado pelo universo feminino e pelas relações complexas da transmissão intergeracional feminina.

Compreendo o seu fascínio como aquele que se sente em relação a algo que - mesmo para as mulheres - continua indecifrável. "Filha és, mãe serás".

Monday, September 11, 2006

Pic of the day


There's no lie big enough for these words

Blog do dia

Entrei na onda minimalista, apesar de ter tanto e tanto para dizer. Fica para um dia destes...

Até lá, um blog delicioso que tenho espreitado volta e meia: o da maria não vai com as outras.

Wednesday, September 06, 2006

A resposta à pergunta anterior é: SIM

Outro reencontro existencial: às tantas tínhamos o piso superior do Era uma vez o Porto e as suas janelas escancaradas para o Douro só para nós.

E nós éramos nós ontem, mas também nós hoje. De repente todos os planetas estavam devidamente alinhados, e essa tarefa ciclópica de juntar a matilha tornou-se possível. Éramos nós outra vez.

E éramos nós no passado e nós no futuro. Éramos nós no meio de interpretações de sonhos e partilha de um copo vinho tinho, umas minis porque "retro é nice", falando de férias, de projectos e do que é a vida aos 20 e muitos.

Mas o que me deixou de brilhozinho nos olhos não foi só o voltar a estarmos novamente num estado de tempo em que o tempo não existe, em que tudo é metralhado ao sabor da intenção inconsequente e insolente. O que me deixou de coração cheio foi ter visto que há vida após a morte: uns casaram, outros juntaram, outros até já conseguem dizer "eu tenho uma relação com ele", outros têm tudo isso e filhos. E estes, o Henrique e o Miguel, e a pocahontas Beatriz, corriam por ali e nada parecia ser dissonante.

Um cheirinho de futuro. E a prova que, sendo diferente (não há como fugir, as madrugadas de conversas em escadas infinitas desaparecem), há vida depois da morte do que éramos, para renascer...mais completos.

E ontem adormeci assim: de coração cheio e com um brilhozinho nos olhos.

Blairwitch à portuguesa

"Até onde", de Carlos M. Barros

http://www.youtube.com/watch?v=TE7YGeMCGcE

Monday, September 04, 2006

Pode matar-se saudade do que já não se é?

Hoje tenho marcado um reencontro existencial. Mais uma espalhada pelo mundo que regressa à aldeia para rever quem passou por ela.

A Babs sempre me pareceu um estranho e encantador paradoxo. Uma tomb boy com imenso charme (e namorados). Uma rufia com boas notas. Uma boca escancarada (ou não fosse uma verdadeira tripeira), com um gosto selectivo pelas artes. Do tipo tanto como sushi como pão com chouriço.

Dela, no passado, recordo as discussões infindáveis pelo seu terrível hábito de conduzir severamente alcoolizada (to say the least); da queima em que entoávamos ornatos violeta com um brinde esquizofrénico (agora recém-baptizado de TGV); das festas "hear-say" na madalena.

Dela, no presente, vou tendo a sua trajectória via blog (por alguma razão que desconheço, o link não está a funcionar, pelo que aqui vai: www.estrujido.blogspot.com). Não me surpreende nadinha. Talvez só a "facilidade" com que atingiu uma certa maturidade inquieta que até hoje me causa estranheza ver como parte dela. A mesma estranheza que causa um craving por douradinhos com arroz de grelos.

Até logo, babs!

Friday, September 01, 2006

Notícia do dia

E agora venham eles.

Que venham os supostos guardiões da vida humana, os arautos da moralidade que infernizam o trabalho de quem quer melhorar a vida de milhões de pessoas. Que venham os que atacam quem trabalha com células estaminais, bociferando com a bíblia numa das mãos e as comissões de ética noutra.

Esta será a resposta: quanto mais os cientistas apresentam trabalho - concreto - menor será a margem de manobra.

Quero que estes bastiões da honorabilidade venham dizer agora, às pessoas que leiam esta notícia, que o que importa são os embriões e as técnicas de recolha. Quero que venham dizer às pessoas que hoje fazem quimioterapia, às pessoas que perderam quem amam para esta doença, às pessoas angustiadas à espera de um resultado de biópsia, que estes resultados não interessam.

Que o que interessa é o minúsculo, microscópico, embrião. E a sacrossanta doutrina, claro.